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Café Brasil 7 - Reading, 23 de Dezembro de 2002

 

Breve relatório do 7o Café Brasil


Clique aqui e veja as fotos do evento

 

Entidade organizadora: ABEP – Associação dos Brasileiros Estudantes de Pós-Graduação e Pesquisadores no Reino Unido

Tema: A proposta de formação da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA: qual deve ser a posição do Brasil?

Local: Saint Patrick’s Hall – University of Reading, Reading, UK.

Palestrantes:
Ministro Piragibe Tarragô – Embaixada Brasileira em Londres
Sinésio P. A. Jr. – estudante de doutorado da UCL – University College London
Juarez Régis – representante do Partido dos Trabalhadores (PT)


Considerações iniciais

1) Ministro Piragibe Tarragô


Apresentou um histórico sobre a proposta de formação da Área de Livre Comércio das Américas - ALCA, bem como a situação atual da negociação. Alguns pontos importantes na fala do ministro:

- a necessidade da criação da ALCA vêm da iniciativa americana em resposta as rodadas de negociações sobre a abertura do comércio mundial no início da década de 90. Os EUA com receio de perder o seu mercado, associou-se aos demais países da América do Norte e México, constituindo o NAFTA, e busca com a ALCA a extensão deste acordo aos outros países latino-americanos.

-a proposta dos EUA é de constituir uma área de comércio, bens, serviços e investimentos sem barreiras, ou com barreiras residuais. Durante o início das discussões os demais países estavam dispostos a fazer o acordo, mas o Brasil se mostrou receoso, porque a abertura abrupta do mercado poderia prejudicar a indústria nacional, especialmente àquela que envolve tecnologia de ponta. Dentre as divergências existentes nas negociações Brasil-EUA destacam-se o protecionismo americano do setor agrícola, e a preservação do Mercosul dentro da Alca. Outra divergência importante se refere ao processo de abertura. O Brasil defende uma adesão escalonada, lenta e de ajustes temporários. Para os EUA, o processo de formação da ALCA deve ser mais rápido.

-o Brasil preferiu continuar nas negociacoes para evitar isolamento na America Latina. Em função de pressões brasileiras o prazo de decisão foi prorrogado para 2005. Nesse tempo dever-se-ia resolver impasses e tentar compor os diferentes interesses nacionais envolvidos.

-Finalmente, o processo de discussão é atualmente coordenado por vários setores do governo (empresários, sindicatos, academia ...). A discussão não teve avanços significativos, o processo tem sido bastante difícil e com muita negociação.

2) Sinésio P. A. Jr.

Apresentou os pontos negativos da abertura da economia, usando como exemplo o ocorrido com o México após a implantação do NAFTA. E destacou a postura dos movimentos sociais durante o processo de negociação. Alguns pontos importantes na fala incial do Sinésio:

- os primeiros anos da negociação não foram transparentes. A negociação da Alca só se tornou popular no Brasil a partir de 1998.

- a Alca significa imposição de protecionismo americano. Como exemplo, a Alca não garante negociação sobre a lei de patentes.

- a exemplo do NAFTA, a entrada do Brasil no ALCA não garantirá avanços na área social. O indíce de desemprego e a pobreza aumentaram no México após o NAFTA. Em 1982 o México importava U$ 790 mi em produtos agroindustriais. Em 1999 este valor subiu para U$ 8 bi. Em 1984 16% dos mexicanos (11 milhões) eram considerados pobres, e apos o NAFTA essa proporção aumentou para 58% da população (54 milhões). Após a ALCA a cesta básica aumentou 560% enquanto os salários só aumentaram 135%. Nas maquiladoras o salário chega a ser 15 vezes menor que nos EUA.

- portanto, a exemplo da entrada do México no NAFTA, a incorporação do Brasil na ALCA representará exploração dos trabalhadores brasileiros pelas multinacionais americanas e não representa, necessariamente, melhorias na condição de vida para a maioria.

- o Plebiscito nacional organizado pelo movimento popular, que envolveu 3894 municipios, mostrou que 98% dos 10 milhões que votaram são contra a entrada do Brasil na Alca.

- a retirada da direção do PT da organização do plebiscito sobre ALCA organizado pelo movimento popular, demonstra a disposição do PT de manter o Brasil na mesa de negociações. Sugere que o governo o PT deva fazer um plebiscito oficial nos moldes do que foi realizado pelo movimento popular.

3) Juarez Regis

Apresentou a posição do PT enquanto partido político e ressaltou que a postura do governo eleito pode ser diferente. Alguns pontos importantes na fala do representante do PT:

- ressaltou que a globalização é inevitável e uma tendência mundial. O Brasil não pode ficar à margem desse processo. Criticou a globalização nos moldes atuais que representa liberalisação do controle financeiro e quebra de barreiras economicas de forma unilateral.

- no atual modelo de globalização defendido e implementado pelos EUA, as economias mais fracas correm o risco de serem absorvidas pelas mais fortes, e por isso devem haver mecanismos de compensação durante o processo. Citou como exemplo mecanismos usados na Europa durante a criação da Comunidade Europeia, que considerou as diferenças regionais de cada país criando mecanismos compensatórios. Citou como contra-exemplo o NAFTA, que ocorreu de forma unilateral.

- o Brasil não deve ficar fora da formação de blocos comerciais, como a ALCA. Deve contudo fazer exigências de interesses nacionais.

-o Brasil deve resgatar o Mercosul e extende-lo como bloco comercial e, no futuro, como bloco político visando a negociação com outros parceiros como a Comunidade Européira.

Debate

1ª rodada


Perguntas do público:
-quais são as reais propostas do governo Lula e como fica Cuba no acordo?
-qual a opinião dos palestrantes sobre a adesão ou não do Brasil à Alca?
-qual a posição dos demais países latino-americanos?

Sinésio Jr -

O Brasil deve resistir à pressão norte-americana, e nesse momento resisitir é dizer “Não”, e esta deve ser a posição da América Latina. O Brasil não deve participar da negociação e chamar os demais países da América Latina para formarem um bloco de resistência.

Juarez Regis –

A posição do PT é a de fortalecer o bloco do Mercosul e então negociar a Alca.. Não dá para ignorar a Alca, deve-se ir à negociação. É necessário que o trânsito de mão-de-obra seja regulamentado. O PT visa ainda a consolidação política e econômica da América Latina, com a criação de um Partamento Latino Americano. O PT não concorda com a ALCA na forma proposta atualmente que pode levar o Brasil a um processo de mexicanização onde a mão-de-obra brasileira seria explorada pelas multinacionais americanas. Não sabe-se a posição de Cuba, mas as declarações de Lula sobre a necessidade de incorporação de Cuba na ALCA, indica que o próximo governo desde já demonstra interesse em defender a presença de Cuba na mesa de negociações.

Ministro Piragibe Tarragô –

Parece válida a proposta do Lula de criar um parlamento latino-americano fazendo a integração política concomitante à integração econômica. Quanto a integração de Cuba, a tendência é que haja uma integração cubana gradual se a Alca for adotada.
Posição dos demais países latino americanos:
a) NAFTA - o México vê a ALCA como concorrente ao contrário do Canada que a aceita sem maiores problemas;
b) Centro-Americanos - os caribenhos concordam desde que tenham acesso privilegiado com os EUA, defendendo um fundo regional para financiar infra-estrutura na região.
c) Latino-Americanos - os andinos estavam de acordo no início mas agora vêem a proposta com mais resistência, tem posição mais reticente pois devem pagar um preço por terem uma agricultura pouco competitiva, e os EUA se beneficiariam com o mercando andino. O Chile, por não ter muitas indústrias nacionais para defender, é francamente favorável, inclusive defende negociações bilaterais com os EUA (importação de manufaturados). No Mercosul, os Argentinos já foram mais favoráveis, no momento tem preferência pelo Mercosul. O Uruguai é favorável a Alca em detrimento ao Mercosul. Os Paraguaios não tem posição definida, farão o que os demais parceiros do Mercosul fizerem. A posição do governo brasileiro é a de que o Brasil permaneça nas negoociações da ALCA, não como destino mas como opcção. Estar na negociação significa interferir no processo decisório, negociando os interesses brasileiros. Se aderirmos à ALCA mais tarde, sem participar do processo de negociação, teríamos de aceitar uma ALCA formulada por outros em que os interesses brasileiros não foram levados em conta.

2ª rodada

Perguntas/comentários do público:
- a negociação não é representativa quando se tem EUA no processo
- quais são as outras alternativas à Alca
- desvantagens de ir contra a Alca

Ministro Piragibe Tarragô –

A não adesão à Alca não significa independência uma vez que 70-80% das indústrias no Brasil são multinacionais. A presença de multinacionais é que garante exportações manufatureiras. O isolamento faria o país regredir para uma característica autárquica de comércio fechado. O Brasil necessita de tecnologia para se modernizar e portanto deve continuar sendo receptivo, absorvendo essas novas tecnologias em seu sistema produtivo. Uma alternativa à ALCA pode ser a consolidação de transações comerciais com a Comunidade Européia, que está no momento a espera do desfecho das negociações. Uma vez estabelecida um bloco comercial nas Américas, a Comunidade Européia entrará com uma proposta concorrente a dos EUA, principalmente no que se refere ao setor agrícola. Outra alternativa é o OMC, em um âmbito multilateral, e com liberação do comércio com regras estáveis. Este sistema é mais sólido no sentido de que não haverá uma área de livre comércio, mas uma gradual abertura comercial politicamente influenciada, como por exemplo, redução à barreiras do aço

Juarez –

O governo Lula certamente adotará uma postura diferente do governo FHC nas negociações da Alca. Lula diz que defenderá para o Brasil o que os americanos defendem para eles. Dentre as alternativas à Alca, o fortalecimento do Mercosul parece ser a melhor opção. Contudo, é preciso que o mercado interno brasileiro seja fortalecido, com investimentos na pequena e média empresa, na indústria rural etc. O Brasil também pode ser beneficiado pela ALCA, dependendo de como a negociação seja feita pode-se desenvolver setores da economia, aumentar volume de exportações e fortalecer a moeda brasileira.

Sinesio Jr.–

Salienta novamente que a incorporação do Brasil na ALCA representará uma neo-colonização americana. Cita o exemplo do ‘catch-22’ para exemplificar a vulnerável posição econômica brasileira perante o FMI e EUA.


3ª rodada

Perguntas/Comentários do público
- Como ficaria a área de tecnologia brasileira com a abertura?
- Quais são os pontos que o Brasil não admite negociar? Qual o poder de barganha do Brasil para negociar com os americanos?
- Como ser parceiro dos EUA em um momento em que estão fragilizados?

Juarez –

O governo do PT será sensível à pressão acadêmica tecnológica, visando o fortalecimento da área tecnológica nacional. É preciso estabelecer pontos dentro da negociação que visam a proteção de setores da economia nacional. O Brasil também pode se beneficiar com a ALCA. Dependendo de como a negociação é feita pode-se desenvolver/modernizar setores importantes da economia, aumentar o volume de exportações e fortalecer o valor do Real.

Piragibe –

O Brasil está na negociação da Alca por opção, e buscará fazer com que os nossos pontos prevaleçam. O processo de decisão é dirigido segundo o contexto mundial, observa-se para onde comércio internacional está indo e toma-se as decisões. Não é uma questão política, mas econômica-social, visando criação de empregos e aumento nas exportações. Quanto ao poder de barganha brasileiro, os EUA tem interesse nos setores brasileiros de serviços, querem mais em relação a lei de patentes, querem que pais abra mercado audio-visual. No setor de serviços por exemplo, atualmente são cobrados impostos para filmes estrangeiros que entram no país, e os EUA querem negociar o direito de usar o mercado sem barreiras. Assim como estabelecer multinacionais sem barreiras. No caso de propriedade intelectual, os EUA não querem que o Brasil fabrique as patentes americanas, mas que importem. O Brasil pode dizer não!

Sinésio Jr. –

A posição do Brasil deve ser de resistência. Os movimentos sociais disseram nas urnas do plebiscito que não querem a adesão do Brasil na ALCA. Chama o PT e o governo eleito para se juntar ao coro do movimento social e formar um bloco de oposição à ALCA. O Brasil deve liderar oposição à ALCA na America Latina.


Encerramento:

Após as considerações finais, a presidente da ABEP, Larissa Chermont, agradeceu a contribuição dos palestrantes, a presença de todos e deu por encerrado o evento.

 

Fotos do evento